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A TRANSDISCIPLINARIDADE E A MODERNIDADE
ROQUE
THEOPHILO é Psicoterapeuta e Jornalista Profissional. É
detentor do título « O Amigo Psicólogo ® ».
AS NOVAS ERAS As novas eras não começam de uma vez Meu avô já vivia no novo tempo Meu neto viverá talvez ainda no velho. A nova carne é comida com os velhos garfos. Os carros automotores não havia Nem os tanques Os aeroplanos sobre os nossos tetos não havia Nem os bombardeiros. Das novas antenas vêm as velhas tolices. A sabedoria é transmitida de boca em boca. Bertold Brecht [1]
Nada é impossível de mudar Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar. Bertold Brecht [2]
1. INTRODUÇÃO. A Transdisciplinaridade não é um simples conjunto de conhecimentos ou um novo modo de organizá-los. Trata-se de uma postura de respeito pelas diferenças culturais, de solidariedade e integração à natureza. 2. O TERMO TRANSDISCIPLINARIDADE NÃO É NOVO. O termo data de 1970, quando Jean Piaget afirmou durante um congresso sobre interdisciplinaridade, que aquela etapa deveria ser sucedida por uma etapa transdisciplinar. O prefixo trans remete ao que está entre, através e além das disciplinas. “A transdisciplinaridade vai além do que chamamos disciplina, que é a memória do conhecimento”. Uma das propostas da transdisciplinaridade é o rompimento da dicotomia entre sujeito e objeto. Fala-se de diferentes níveis de percepção aos quais correspondem diferentes níveis de realidade, pois que, a transdisciplinaridade propõe uma alternância em três níveis da razão sensível, razão experiencial e razão prática. A transdisciplinaridade, como paradigma emergente, propõe transcender o universo fechado da ciência e trazer à tona a multiplicidade fantástica dos modos de conhecimento, assim como o reconhecimento da multiplicidade de indivíduos produtores de todos estes novos e velhos modos de conhecimento. A partir de então, surge a necessidade de reafirmar o valor de cada sujeito como portador e produtor legítimo de conhecimento. Sendo assim, a transdisciplinaridade chama a atenção para a potencialização de tendências heterogêneas, seja no campo das subjetividades, ou no da produção de conhecimento, abrindo áreas de tensão com as tendências homogeneizantes. Pode a transdisciplinaridade, de fato, viabilizar a valorização de processos de caráter heterogêneo no campo das subjetividades e da produção de conhecimento, num contexto marcado pelas possibilidades abertas com o advento da virtualização? Transdisciplinaridade é um neologismo correto. Não deve ter hífen, nem precisa ser escrito em itálico, ou entre aspas. Basarab Nicolescu[3] fomenta a Transdisciplinaridade como uma forma de ser, saber e abordar, atravessando as fronteiras epistemológicas de cada ciência, praticando o diálogo dos saberes sem perder de vista a diversidade e a preservação da vida no planeta, construindo um texto contextualizado e personalizado de leitura dos fenômenos. Os participantes do Congresso, Ciência e Tradição: Perspectivas Transdisciplinares para o século XXI, realizado pela UNESCO, no período de 02 a 06 de dezembro de 1991, em Paris, emitiram um Comunicado Final no qual salientaram, dentre outros pontos, que a Transdisciplinaridade não procura construir sincretismo algum entre a ciência e a tradição, cujas práticas entendem serem radicalmente diferentes da metodologia da ciência moderna, mas sim, que a Transdisciplinaridade procura pontos de vista a partir dos quais seja possível torná-las “interativa", procura espaços de pensamento que as façam sair de sua unidade, respeitando-se as diferenças que têm entre si, apoiando-se em uma nova concepção da natureza, de maneira que o "desafio da transdisciplinaridade é gerar uma civilização em escala planetária que, por força do diálogo intercultural, se abra para a singularidade de cada um e para a inteireza do ser".
Foi presidido por Mário Soares, e reuniu no Convento de Arrábida [4], uma centena de especialistas das áreas da ciência, letras, arte e religião, de diferentes localidades. O evento foi chamado de a "Primeira Grande Manifestação Mundial da Transdisciplinaridade", que ocorreu de 2 a 6 de Novembro de 1994, com entusiástico apoio da Direção-Geral da UNESCO, e de cuja organização participaram o eminente físico Basarab Nicolescu, presidente do CIRET (Centre International pour la Recherche et Études Transdisciplinaires), Edgar Morin [5] e Lima de Freitas [6]. Na última sessão do Congresso foi discutido um projeto de «Carta da Transdisciplinaridade» da autoria de Edgar Morin, Basarab Nicolescu e Lima de Freitas. Já datava de alguns anos a idéia de reunir pessoas que tivessem, na comunidade internacional, uma atitude Transdisciplinar, e o Congresso da Arrábida de 1994 é considerado herdeiro de tentativas anteriores de aproximação Transdisciplinar, tais como o Congresso de Veneza de 1986 "La Science devant le confins de la Science", o Congresso de Córdoba de 1979 "Science et Conscience" e o Congresso de Paris de 1991 "Science et Tradition". Como resultado delas foi fundado, em Abril de 1992, o "Grupo de Reflexões sobre a Transdisciplinaridade, junto à UNESCO, tendo como coordenador e fundador Basarab Nicolescu, e composto por catorze membros, o qual elegeu Portugal, sede em 1994 da capital européia da cultura e, mais especificamente, o Convento da Arrábida para abrigar esse congresso. 4. TRANSDISCIPLINARIDADE.
Ari Paulo Jantsch – da UFSC
A resposta não é fácil de ser dada, porque não existe ainda um consenso sobre ela. Mais fácil é dizer-se o que ela não é. Pode-se conceituar que a Transdisciplinaridade não constitui nem uma nova religião, nem uma nova filosofia, nem uma nova metafísica, nem uma ciência das ciências". Também não se constitui num cientismo neopositivista, nem numa ideologia, nem numa nova linguagem e não deve ser um mero hibridismo, uma importação de metáforas. Um mesmo objeto de estudo pode freqüentemente ser apreciado sob múltiplos pontos de vista. Assim, uma obra de arte, uma pintura, pode ser estudada não apenas do ponto de vista da Arte, mas também da História, da Sociologia, da Psicologia e da Religião, para se compreender as condições e motivações sob as quais foi feita; do ponto de vista da Física e da Química, para se compreender as técnicas e materiais utilizados, etc. Esta atitude é denominada Multidisciplinaridade. Para Nicolescu, "é uma justaposição de conhecimentos", "é o estudo do ponto de vista de múltiplas disciplinas”. Por vezes, sente-se a conveniência e proficuidade de importar-se um método de uma disciplina para outra, surgindo uma interdisciplina. Um exemplo moderno e paradigmático é a Ciência do Caos: começou-se com o estudo da turbulência na evolução das nuvens e desenvolveram-se métodos que vêm sendo aplicados nas disciplinas mais díspares: Engenharia, Biologia, Medicina, Psicanálise, Economia, Política, etc. Costuma-se denominar essa atitude de Interdisciplinaridade. "Diz respeito sempre ao objeto de estudo de disciplinas do ponto de vista do método. Quando se faz a transferência de método de uma disciplina para a outra, fica-se no espaço da interdisciplina”. Mas, em outras ocasiões, é necessário cometer o «sacrilégio» de cruzar as fronteiras de sua própria disciplina e estabelecer uma ponte que permita estudar fenômenos que se situam fora e além do âmbito das disciplinas existentes. Este é o campo da Transdisciplinaridade. Explica-nos, ainda, Nicolescu : "Todo o conhecimento ocidental assenta sobre a eficácia da especialização, o que é para mim uma idéia justa." Mas, "a Transdisciplinaridade não é uma nova disciplina", e "não diz respeito nem ao método (nem, portanto, à transferência do método), nem à justaposição de conhecimentos que fazem parte de uma disciplina já existente'. É, antes, "uma atitude rigorosa em relação a tudo o que se encontra no espaço, que não pertence a nenhuma disciplina". Dito de outra forma, "a Transdisciplinaridade é complementar da aproximação disciplinar; ela faz emergir da confrontação das disciplinas novos dados que as articulam entre si e que nos dão uma nova visão da natureza e da realidade" («Carta da Transdisciplinaridade», artigo 7º). É importante frisar, porém, que esse diálogo entre disciplinas não se restringe às chamadas ciências «duras»: "A visão transdisciplinar é deliberadamente aberta na medida em que ela ultrapassa o domínio das ciências exatas pelo seu diálogo e a sua reconciliação não somente com as ciências humanas, mas também com a arte, a literatura, a poesia e a experiência interior” («Carta da Transdisciplinaridade», artigo 5º). E "a ética transdisciplinar recusa toda a atitude que rejeita o diálogo e a discussão, de qualquer origem - de ordem ideológica, científica, religiosa, econômica, política, filosófica. O saber partilhado deve conduzir a uma compreensão partilhada, fundada sobre o respeito absoluto das alteridades unidas por uma vida comum numa única e mesma Terra" («Carta da Transdisciplinaridade», artigo 13º). Em contrapartida, ao contrário de outras atitudes contemporâneas, a Transdisciplinaridade decididamente não pretende ser um mero movimento “new-age”, nem um supermercado de esoterismos, nem um caldeirão (melting pot) onde se «cozinhem» distintos campos de conhecimento e culturas numa «papa» sincrética que as faz "perder a sua substância e aquilo que legitima a sua verdade”. A "visão transdisciplinar" está aberta, já que ultrapassa o "domínio das ciências exatas por seu diálogo e por sua reconciliação", quer com "as ciências humanas", quer com "a arte, a literatura, a poesia e a experiência espiritual" (Artigo 5), sendo um de seus imperativos, o reconhecimento da "Terra como Pátria", de maneira que o ser humano, conquanto tenha o direito a uma nacionalidade, em sendo um habitante da Terra, é, concomitantemente, um "ser transnacional", sendo uma das metas da pesquisa transdisciplinar, o reconhecimento, pelo direito internacional, desse caráter dúplice do ser humano, isto é, ele pertence a uma Nação e a Terra (Artigo 8). Edgar Morin baseado em Thomas Kuhn (autor de A Estrutura das Revoluções Científicas) traça o seguinte conceito: "O desenvolvimento da ciência não se efetua por acumulação dos conhecimentos, mas por transformação dos princípios que organizam o conhecimento". Este é um dos princípios básicos da transdisciplinaridade. Morin refere também que para promovermos transdisciplinaridade precisamos separar, opor, e portanto, dividir relativamente esses domínios científicos, fazendo-os se comunicarem sem operar a redução, uma vez que esta é insuficiente e mutilante, para isto propõem um paradigma da complexidade que ao mesmo tempo em que separa, associa, propiciando níveis de emergência da realidade sem os reduzir às unidades elementares e às leis gerais. Segue dizendo que para podermos comunicar os três grandes domínios do conhecimento (física, biologia e antropossociologia), há que se fazer um caminho em circuito enraizando antropossociologia na biologia e na física sem reduzir o humano a interações físico-químicas e sim reconhecendo os níveis de emergência. Da mesma forma há que se operar o movimento em sentido inverso. Afirma "o objetivo de minha procura de método é não encontrar o princípio unitário de todos os conhecimentos, até porque isso seria uma nova redução, a redução a um princípio-chave, abstrato, que apagaria toda diversidade do real, ignoraria os vazios, as incertezas e aporias provocadas pelo desenvolvimento dos conhecimentos (que preenche vazios, mas abre outros, resolve enigmas, mas revela mistérios). É a comunicação com base num pensamento complexo. Ao contrário de Descartes, que partia de um princípio simples de verdade, ou seja, que identificava a verdade com as idéias claras e distintas, e por isso podia propor um discurso muito longo à procura de um método que não se revela por nenhuma evidência primária e que deve ser elaborado com esforço e risco. A missão desse método não é fornecer as fórmulas programáticas de um pensamento "são". É convidar a pensar-se na complexidade. E aí chegamos à problemática da complexidade. Mal entendidos fundamentais devem ser esclarecidos. Morin refere que um deles consiste em conceber a complexidade como receita, como resposta, em vez de considerá-la como desafio e como uma motivação para pensar. O problema da complexidade é, antes de tudo, "o esforço para conceber um incontornável desafio que o real lança a nossa mente". Saindo da simplificação surge outro mal-entendido que consiste em confundir a complexidade com a completude. O que na verdade ocorre é que o problema da complexidade é o da incompletude do conhecimento. Morin cita um exemplo que talvez possa tornar o objetivo do pensar complexo um pouco mais claro: “Se tentamos pensar no fato de que somos seres ao mesmo tempo físicos, biológicos, sociais, culturais, psíquicos e espirituais, é evidente que a complexidade é aquilo que tenta conceber a articulação, a identidade, e a diferença de todos estes aspectos, enquanto o pensamento simplificante separa esses diferentes aspectos, ou unifica-os por uma redução mutilante”. Portanto, nesse sentido, é evidente que a ambição da complexidade é prestar contas das articulações despedaçadas pelos cortes entre disciplinas, entre categorias cognitivas e entre tipos de conhecimento. De fato, a aspiração à complexidade tende por um conhecimento multidimensional. Ela não quer dar todas as informações sobre um fenômeno estudado, mas respeitar suas diversas dimensões ao aspirar a multidimensionalidade, o pensamento complexo comporta em seu interior um princípio de incompletude e de incerteza. Neste ponto Edward Wilson (autor de Consilience - The Unity Of Knowledge) tece o seguinte conceito:”A mente é uma república auto organizada de cenários que germinam individualmente, crescem, evoluem, desaparecem“, e que ocasionalmente, demoram o bastante para semear pensamento adicional e atividade física". Não é dar a receita que fecharia o real numa caixa, é fortalecer-nos na luta contra a doença do intelecto - o idealismo - que crê que o real se pode deixar fechar na idéia, e que acaba por considerar o mapa como o território, e contra a doença degenerativa da racionalidade, que é a racionalização, a qual crê que o real se pode esgotar num sistema coerente de idéias. Os vários grupos que estudam no modelo da complexidade tem diferentes pontos de vista e adotam vocabulários diferentes, como por exemplo, sistemas adaptativos complexos, sinergética, complexidade. Nossa educação nos ensinou a separar e isolar as coisas, a saber, as coisas deterministas, que obedecem a uma lógica mecânica, coisas das quais podemos falar com muita clareza, com previsão e predição.
A pluridisciplinaridade diz respeito ao estudo de um objeto de uma única e mesma disciplina efetuada por diversas disciplinas ao mesmo tempo. Por exemplo, a filosofia marxista pode ser estudada sob a visão cruzada da filosofia e da física, da economia, da psicanálise ou da literatura. O objeto sairá assim enriquecido pelo cruzamento de várias disciplinas. O conhecimento do objeto em sua própria disciplina é aprofundado mediante uma fecunda contribuição pluridisciplinar. A pesquisa pluridisciplinar adiciona um algo mais à disciplina em questão (a filosofia, no exemplo citado), mas esse “algo mais” está a serviço exclusivamente daquela própria disciplina. Em outras palavras, o procedimento pluridisciplinar ultrapassa os limites de uma disciplina, mas sua finalidade permanece restrita ao quadro da pesquisa disciplinar em questão. A interdisciplinaridade tem uma ambição diferente daquela da pluridisciplinaridade. Ela diz respeito à transferência dos métodos de uma disciplina para outra. Podemos distinguir três graus de interdisciplinaridade: a) um grau de aplicação: a transferência dos métodos da física nuclear para a medicina, por exemplo, leva à descoberta de novas formas de tratamento do câncer; b) um grau epistemológico: a transferência dos métodos da lógica formal para o domínio do direito, por exemplo, dá origem a interessantes análises na epistemologia do direito; c) um grau de criação de novas disciplinas: a transferência dos métodos da matemática para o estudo dos fenômenos meteorológicos ou da bolsa, por exemplo, gerou a teoria do caos. Assim como a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade ultrapassa igualmente os limites das disciplinas, porém sua finalidade também continua inscrita na pesquisa disciplinar. No seu terceiro grau, a interdisciplinaridade contribui até mesmo para o big bang disciplinar. Já a transdisciplinaridade, conforme indica o prefixo “trans”, envolve aquilo que está ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de toda e qualquer disciplina. Sua finalidade é a compreensão do mundo atual, para a qual um dos imperativos é a unidade do conhecimento. Existe alguma coisa entre e através das disciplinas e além de toda e qualquer disciplina? Do ponto de vista do pensamento clássico não existe nada, absolutamente nada. O espaço em questão é vazio, completamente vazio, como o vácuo da física clássica. Diante de vários níveis de Realidade, o espaço entre as disciplinas e além das disciplinas está cheio, como o vácuo quântico está cheio de todas as potencialidades: da partícula quântica às galáxias, do quark aos elementos pesados que condicionam o aparecimento da vida no Universo. A estrutura descontínua dos níveis de Realidade determina a estrutura descontínua do espaço transdisciplinar, a qual, por sua vez, explica porque a pesquisa transdisciplinar é radicalmente distinta da pesquisa disciplinar, da qual é complementar. A pesquisa disciplinar envolve, no máximo, um único e mesmo nível de Realidade; na maioria dos casos, aliás, ela não envolve senão fragmentos de um único e mesmo nível de Realidade. Em contrapartida, a Transdisciplinaridade interessa-se pela dinâmica decorrente da ação simultânea de diversos níveis de Realidade. A descoberta dessa dinâmica passa necessariamente pelo conhecimento disciplinar. Os três pilares da transdisciplinaridade: os níveis de Realidade, a lógica do terceiro incluído e a complexidade – determinam a metodologia da pesquisa transdisciplinar. A disciplinaridade, a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade são as quatro flechas de um único e mesmo arco: o do conhecimento.
Como seria possível adotar-se e manter-se tal atitude transdisciplinar? No preâmbulo da citada Carta, considera-se que "só uma inteligência que dê conta da dimensão planetária dos conflitos atuais poderá fazer face à complexidade do nosso mundo e ao desafio contemporâneo de autodestruição material e espiritual da nossa espécie". E como se adquirir tal inteligência planetária? Talvez uma «educação transdisciplinar» que considerasse o Homem como um Ser Integral: "Uma educação autêntica não pode privilegiar a abstração no conhecimento. Ela deve ensinar a contextualizar, concretizar e globalizar. A educação transdisciplinar revaloriza o papel da intuição, do imaginário, da sensibilidade e do corpo na transmissão dos conhecimentos" («Carta da Transdisciplinaridade», artigo 11). Em clara oposição à "ruptura contemporânea entre um saber cada vez mais cumulativo e um ser interior cada vez mais empobrecido conduz à escalada dum novo obscurantismo, cujas conseqüências no plano individual e social são incalculáveis" («Carta da Transdisciplinaridade», Preâmbulo). Desta forma, a questão da Transdisciplinaridade toca de perto o interesse dos educadores. E se a Pedagogia assume-se interdisciplinar ou multidisciplinar, é preciso o perigoso e difícil salto para o «trans», para fora de si mesma. Da síntese desses encontros, é possível identificar-se a Transdisciplinaridade como, respectivamente, "uma troca dinâmica entre as ciências exatas, as ciências humanas, a arte e a tradição", a teor do Colóquio de 1986; "a procura de pontos de vista a partir dos quais seja possível tornar interativas a ciência e a religião, propiciando espaços de pensamento que as façam sair de sua unidade", conforme Congresso de 1991; "como complementação à aproximação disciplinar, fazendo emergir da confrontação das disciplinas, dados novos que as articulem entre si", nos termos do Primeiro Congresso Mundial de 1994. Observa-se, portanto, que a Transdisciplinaridade é um estágio posterior à interdisciplinaridade. Esta, como já se referiu anteriormente, é aqui considerada como a interação existente entre duas ou mais disciplinas
A finalidade do CETRANS ,é desenvolver atividade de pesquisa e prática reflexiva sobre a epistemologia transdisciplinar e a subseqüente geração de projetos que visem a sua implementação nas áreas correntes do conhecimento, do ensino e do trabalho, considerando as inter-relações existentes entre elas. Quando falamos de transdisciplinaridade o que está entre, através e além das disciplinas, estamos colocando em evidência uma visão emergente e uma nova atitude perante o saber. Respeitando a atitude transdisciplinar (rigor, abertura e tolerância), este centro procura cultivar a lucidez, a criatividade, a prudência e a ousadia em seus trabalhos, sejam eles de curto, médio ou longo prazo, visando contribuir para o desenvolvimento sustentável da sociedade e do ser humano. Para esse fim, o CETRANS se propõe a: 1. Refletir sobre a epistemologia, a teoria e a metodologia transdisciplinar; 2. Criar pontes entre a teoria e a prática, através dos três pilares da transdisciplinaridade: complexidade, os diferentes níveis de realidade e a lógica do terceiro incluído; 3. Promover conferências e encontros virtuais e presenciais; 4. Oferecer cursos presencias, semipresenciais e a distância; 5. Coordenar grupos de pesquisa e acompanhar a implementação de projetos-piloto; 6. Produzir, traduzir e editorar textos transdisciplinares; 7. Manter e atualizar o site http://www.cetrans.futuro.usp.br; 8. Firmar parcerias com instituições, associações e núcleos nacionais e internacionais;
O termo HOLÍSTICO e holismo, criados por Jan Christian Smuts [7], e transdisciplinar, definido por Jean Piaget [8] tornaram-se cada vez mais usados e conhecidos, de maneira que fazendo uma análise comparativa entre ambos, entende que há vários tipos de transdisciplinaridade, segundo a colocação das disciplinas, de tal sorte que não se pode, portanto, falar em transdisciplinaridade, mas sim, em transdisciplinaridades (no plural). Tomando-se como parâmetro os diferentes conceitos trazidos sobretudo pelos franceses, e a Declaração de Veneza da Unesco, de 1986, identifica duas espécies de transdisciplinaridade, a chamada “transdisciplinaridade especial”, concebida como “a axiomática comum a várias disciplinas, quer dentro das ciências, das filosofias, das artes ou das tradições espirituais”, exemplificando, a propósito, “a axiomática comum entre a biologia e física dentro da ciência, ou as Mônadas (cada uma das substâncias simples e de número infinito, de natureza psíquica dotada de apercepção e apetição, e que não têm qualquer relação umas com as outras, que se agregam harmoniosamente por predeterminação da divindade, constituindo as coisas de que a natureza se compõe) de Leibniz [9] e o Ser de Heidegger [10] em filosofia, e a chamada "transdisciplinaridade geral", definida pela Declaração de Veneza, que propugna pela troca dinâmica entre as ciências exatas, as ciências humanas, a arte e a tradição, que, se praticada, leva à abordagem holística, com a qual se identifica. Em suma a Holística, palavra derivada do grego, Holos, a significar o "Todo", a "Totalidade", juntamente com o termo "holismo", são palavras que têm aparecido com mais freqüência, associadas que estão a "uma nova visão holística", definida por Monique Thoenig[11] que criou em Paris a primeira Universidade Holística,como uma nova consciência para uma novas era. A abordagem holística na realidade é Transdisciplinar .Ela é igualmente, o fator holístico por excelência da Realidade, e corrigirá os efeitos nefastos da especialização que levará a um novo paradigma que ultrapassará e irá ”forçosamente além da Ciência e da Tradição” (Nicolescu,1985, Cap.10, p.237s), através de um retorno à unidade de conhecimento humano colocado em termos científicos por Niels Bohr[12] No ensaio "A Unidade do Conhecimento", Bohr começa por colocar a linguagem como um instrumento da comunicação científica. O maior problema no emprego da linguagem seria preservar a objetividade da teoria no momento em que as experiências ultrapassam os fatos da vida de cada um, saindo do âmbito do que pode ser imaginado pictoricamente. (veja BOHR, N., Física Atômica e Conhecimento Humano; trad. Vera Ribeiro. - Rio de Janeiro: Contraponto, 1995. “A Unidade do Conhecimento, p.85/87”). Em suma: O grande esforço e reformular o enfoque analítico gerador da especialização. O fato de sua instalação foi devida ao vasto campo de conhecimento humano que foi sendo reforçado pela Revolução Científica determinada pela invenção da tipografia, em 1440, a ruptura de fronteiras físicas e mentais resultante das grandes navegações e o grande desenvolvimento comercial estimularam ainda mais o florescimento tecnológico. Nos séculos XVI e XVII a ciência rompe com a tradição escolástica medieval e surge a ciência experimental. Seus principais expoentes são Galileu Galilei, Francis Bacon (1561-1626) e René Descartes. Os primeiros grandes inventos que marcam a modernidade são instrumentos de medida, e os primeiros grandes inventores são fabricantes de relógios, óculos e mecânicos de oficina. Assim como a revolução industrial levou os homens a caírem na dependência de suas próprias criações, também a nova civilização científica e técnica traz em si novos e grandes riscos.com a criação do especialista, expert que passou a ser um novo herói. Impõe-se uma verdadeira revolução que, como tal, implica a conjugação, em nova ordem, de muitos elementos de natureza estrutural e social. É o novo modo de produção e de vida dos homens, como novo modo de se relacionar com o mundo que poderá gerar uma vida nova mais humana. Que pode ser através da integração do Holismo com a Transdisciplinaridade passo urgente para a modernidade. 11. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E FONTES ELETRÔNICAS. "CARTA DE TRANSDISCIPLINARIDADE". (Adotada no Primeiro Congresso Mundial da Transdisciplinaridade, Convento de Arrábida, Portugal: 2 a 6 novembro 1994). ATLAN, Henri, Com Razão ou Sem Ela, Piaget, Lisboa, 1994, p. 12. GAMBOA, Silvio. Epistemologia da pesquisa em educação. Campinas: SN, 1987. GUATTARI, Félix. Caosmose. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. GUSDORF, Georges. Tratado de metafísica. São Paulo: Editora Nacional, 1960. LÉVY, Pierre e AUTHIER, Michel. As árvores de conhecimento. Escuta Editorial, 1995. LÉVY, Pierre. Cibercultura. Rio de Janeiro: Editora 34, 2000. LÉVY, Pierre. O que é o virtual. Rio de Janeiro: Editora 34, 1996. NICOLESCU, Basarab, A Visão do que há Entre e Além, entrevista a Antónia de Sousa in Diário de Notícias, Caderno Cultura, Lisboa, 3 de Fevereiro de 1994, pp. 2-3. NICOLESCU, Basarab "A Evolução Transdisciplinar da Universidade, Condição para o Desenvolvimento Sustentável". Responsabilidade das Universidades para com a Sociedade - International Association of Universities - Quarta Conferência Trimestral, Chulalongkorn University, Tailândia, de 12 a 14 de novembro de 1997. Von ZUBEN, Newton Aquiles. Conhecimento – Disciplina – Transdisciplinaridade. Texto mimeografado. Campinas, 1998. WEIL, Pierre. Organizações e Tecnologias Para o Terceiro Milênio - A Nova Cultura Organizacional Holística. 3. ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1993, 109. WEIL, Pierre; D'AMBROSIO, Ubiratan; CREMA, Roberto. Rumo à Nova Transdisciplinaridade. São Paulo: Summus, 1993. 175 p. http://www.cetrans.futuro.usp.br/cartadatransport.html. "COMUNICADO FINAL DO CONGRESSO ORGANIZADO PELA UITF". Ciência e Tradição: Perspectivas Transdisciplinares para o século XXI - Paris, UNESCO, 2 a 6 de dezembro de 1991. http://www.cetrans.futuro.usp.br/cienciatradicao.htm. "DECLARAÇÃO DE ESTOCOLMO SOBRE O MEIO AMBIENTE HUMANO - 1972". Conferências de Cúpula da ONU sobre Direitos Humanos. http://www.direitoshumanos.usp.br/documentos/tratados/cup../declaracao de estocolmo.htm. "DECLARAÇÃO DE VENEZA". Comunicado final do Colóquio "A Ciência Diante das Fronteiras do Conhecimento". Veneza, 07demarçode1986. <http://www.cetrans.futuro.usp.br/declaracaodeveneza.htm> . <http://www.cetrans.futuro.usp.br/thailandiaport.html>
12. NOTAS DO TEXTO. [1] Poemas – 1913- 1956 - Nasceu em Augsburgo, 1898 e morreu em Berlim, 1956 - Escritor e dramaturgo alemão. Destaca-se também na poesia, de forte conteúdo social. [2] Idem 1. [3] Basarab Nicolescu, físico teórico, especialista em teoria das partículas elementares, no Centro de Nacional de Pesquisa Cientifica, Laboratório de Física Nuclear e Altas Energias, Universidade Pierre e Marie Currie, Paris, Ph. D. em Ciências Físicas, Universidade Pierre e Marie Currie,(Paris), Presidente e Fundador do Centro Internacional para a Pesquisa e Estudos Transdisciplinares (CIRET), Co-fundador, com René Berger, do Grupo de Estudos em Transdisciplinaridade na UNESCO (1992).O romeno Basarab Nicolescu é um dos mais atuantes e respeitados físicos teóricos no cenário científico contemporâneo. Especialista na teoria das partículas elementares, é autor de diversos livros e centenas de artigos publicados em revistas especializadas e livros científicos coletivos na Europa, nos Estados Unidos, no Japão e no Brasil. É professor de física teórica da Universidade Pierre e Marie Curie, em Paris, onde foi fundador do Laboratório de Física Teórica e de Altas Energias. É também presidente do CIRET, Centro Internacional de Pesquisas e Estudos Transdisciplinares, fundado na França em 1987. [4] Localizado numa zona de invulgar beleza natural, perto de Lisboa mas simultaneamente longe do burburinho da grande cidade, o Convento da Arrábida reúne todas as condições para o estudo e reflexão, para o debate de temas e idéias, para a realização, enfim, das mais diversas atividade culturais e científicas. [5] Co-diretor do Centro de Estudos Transdisciplinares (Sociologia, Antropologia, Política) da Escola de Estudos Superiores em Ciências Sociais (1973 - 1989) Edgar Nahoun-que mais tarde adotou o sobrenome "Morin", nasceu em Paris, em 1921, filho de país judeu. Formou-se em História, mas acabou por se dedicar à Filosofia, Sociologia e Epistemologia. Entre outras atividades é Diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica, fundador do Centro de Estudos Transdisciplinares da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris. Co-dirigiu o Centro de Estudos Transdisciplinares (Sociologia, Antropologia, Política) da Escola de Estudos Superiores em Ciências Sociais (1973-1989). É presidente da Agência Cultural Européia, da UNESCO. A sua filosofia procura dar resposta ás grandes questões do nosso tempo, no quadro de uma visão integrada e multidisciplinar do conhecimento. Escreveu “Ciência com Consciência”, Bertrand Brasil e Publicações Europa-América Lisboa. [6] Presidente do comitê português do CIRET. [7] 1870-1950 filósofo,general e estadista sul-africano, que influiu de forma decisiva no processo de integração da União Sul-Africana e destacou-se como um dos pioneiros do movimento antiapartheid Era defensor de um principio organizador de TotalidadeCriou o termo HOLISMO, que tem origem em HOLOS (totalidade) e foi utilizado pela primeira vez, em 1926, em seu livro "Holism and Evolution", no qual ele estabeleceu uma relação entre vida e matéria, considerando-as como partes de uma totalidade maior e única, onde cada conjunto ou sistema completo em si mesmo integra-se a conjuntos cada vez mais aperfeiçoados e abrangentes .Foi o austríaco dissidente de Freud, Alfred Adler(1870-1973), que foi muito influenciado pela idéia principalmente na sua concepção de que inerente a todo corpo há uma batalha para se tornar um todo [8] (1896-1980) foi um renomado psicólogo e)- filósofo suíço, conhecido por seu trabalho pioneiro no campo da inteligência infantil. Piaget passou grande parte de sua carreira profissional interagindo com crianças e estudando seu processo de raciocínio. (Seus estudos tiveram um grande impacto sobre os campos da Psicologia e Pedagogia , fundou e dirigiu o Centro Internacional para Epistemologia Genética. Ao longo de sua brilhante carreira, Piaget escreveu mais de 75 livros e centenas de trabalhos científicos [9] Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), filósofo, matemático e lógico alemão. [10] Martin Heidegger (1889-1976), filósofo existencial. [11] Em 1980 em torno da psicóloga francesa, um grupo de pensadores europeus reunidos fundou a Universidade Holística de Paris, uma instituição transdisciplinar onde ciência, filosofia, arte e tradição pudessem criar um novo paradigma para a formação pessoal). [12] Seu nome completo é Niels Henrik David Bohr (1885-1962) foi diretor do Instituto de Física Teórica da Universidade de Copenhague (Dinamarca). |